quinta-feira, 6 de abril de 2017

NOT another brick on the wall

Ontem fiquei surpreendida. De queixo caído. E foi uma surpresa tão boa!

Ontem, enquanto falava da alta natalidade em África e dos problemas de desenvolvimento que a esmagadora maioria dos países africanos apresentam, falei também das diversas causas desses problemas. Mencionei os conflitos constantes e comparei algumas situações com a guerra civil que existiu em Timor Leste logo após o referendo. A maioria dos alunos referiu imediatamente as milícias e percebeu a analogia que eu estava a fazer. MAS, um aluno, o Elvis, um puto fora de série para este contexto fez a observação do dia. Tão fora de série que foi da boca dele que ouvi: "guerra civil como aquilo que faz o Boko Haram?" Eu parei e repeti as palavras dele. "Tu sabes o que é o Boko Haram, Elvis?Como sabes?". Com muita segurança e sem qualquer vaidade intelectual, o Elvis disse que tinha visto na televisão e explicou à turma que o Boko Haram é uma mílicia que rouba as meninas. Como terroristas". A turma elogiou o conhecimento do colega o que também é bem bonito.

Procuro que o meu trabalho em sala de aula, o meu relacionamento com os alunos se expresse também na relação que tenho com a sociedade e com cultura. Segundo Paulo Freire “o bom professor é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento." Ontem julgo que consegui!

sábado, 1 de abril de 2017

Microlet 1 - Marta 0

Neste tempo que já passei em Same também conheci o Charles! O condutor da microlet onde abri a cabeça, na primeira ida à praia de Betano, num Sábado que fica para a história do nosso grupo de casa. Ida até à praia em grande estilo, música do Marco Paulo a bombar durante 24 km, 1h15, e na chegada à praia raspo a tola na parte interior da porta da microlet. Não parti a cabeça. Abri o escalpe. Tal como os índios faziam aos cowboys no Farwest norte-americano. A vêr-se mesmo o osso e com uma metade de pele para cada lado...

Inicialmente nem me doeu. Tive uma leve impressão e levei a mão à cabeça. Vi que tinha sangue. As minhas colegas aproximaram-se para ver o que se passava e começo a ouvir as exclamações. Todas com ar de preocupação. Pensei que exageravam. Pedi para tirarem uma foto para eu ver. Estava feio. Mesmo feio. Senti-me indisposta e pedi para me sentar. As colegas improvisaram um curativo com um penso higiénico (!!) e soro fisiológico (abençoadas lentes de contacto). Não fui ao mar nem apanhei sol na moleirinha.

Voltámos a casa algumas horas depois. Só fui ao hospital no dia seguinte. Absolutamente decidida a não deixar nenhum médico timorense tocar na ferida... Foi precisamente o que aconteceu... Apesar da Diana ter corrido que nem uma desesperada à procura dos médicos cubanos e me ter avisado para não permitir que o médico fizesse o que quer que fosse. Quando ela regressou eu já estava com a seringa da anestesia enfiada na ferida!!! Sob grandes protestos e a defesa acérrima da Diana que não permitiu que o médico cortasse nem mais um fio de cabelo que o estritamente necessário, o médico lá coseu a ferida, com linha retirada da embalagem à minha frente e uma tesoura que só foi desinfetada uma vez, numa sala de urgência retirada de um filme de terror...ou comédia...consoante a perspetiva.

1 mês, 1 semana e 1 dia

Cheguei a Same, capital do distrito de Manufahi, precisamente há este tempo. Uma viagem penosa, de curva e contracurva, de muitos solavancos por um arremedo de estrada, uma picada salpicada aqui e acolá, por resíduos de alcatrão. Buraco aqui, lomba acolá e depois de 112 km percorridos, 6h30 de caminho, cheguei "a casa". Neste período de tempo muita coisa aconteceu. Conheci a escola e os alunos, os meus e os outros para quem sou mais uma professora malai. Conheci novos colegas, portugueses e timorenses. Pessoas com quem aprendo, todos os dias, a nobre arte da convivência pacífica. Conheci novos locais. O Lubi, restaurante do sr. Adelino, neto de um português e que viveu dezasseis anos na Damaia. Um restaurante com um menu de três pratos: peixe (que às vezes "há mas não tem!") frango e carne de vaca. Tudo com o mesmo acompanhamento: arroz, batata frita, salsicha, rissóis e salada. Para entrada há café e uns bolinhos parecidos com areias. Também já houve um dia com tremoços para entrada!!! Para sobremesa há banana. O "café" da D. Olga. Local de venda de bolachas e bolinhos, empacotados, onde só vamos mesmo pelo café timor (café de chávena cheia). A "padaria" onde, ao sábado, pode, eventualmente, existir "pão" fresco a horas imprevisíveis. A loja da "menina da calculadora" onde os preços são um verdadeiro assalto às carteiras dos malai. Um ovo custa 1USD!!!! 1 USD é o mesmo que 0,94€!!!!Um arremedo de mercearia onde a calculadora apresenta valores exorbitantes para quem compra meia dúzia de ovos e uma latinha de azeite! O mercado e as suas vendedoras que também só têm um valor a pedir por meia dúzia de cenouras manhosas: "satu dólar" (1USD), o mesmo preço de uma papaia, de um cacho de bananas, de meia dúzia de mini tomates (não são cherry), de meia dúzia de batata Europa (a nossa)... Aqui nunca se ouviu falar da venda a peso...

A primeira viagem até Same
(Pedro, Antonieta, Ana, Manuela)